Servem as seguintes pobres e singelas linhas meus amigos, para vos falar daquela que é a minha faculdade preferida, cultivada pelos jogos, a imaginação.
Isto vem a propósito de algo que falei ontem com um amigo meu, e é algo em que acredito há já muito tempo. Cada vez menos os jogos convidam o jogador a utilizar a sua imaginação, cada vez mais o convidam a mostrar a sua superioridade e perseverança.
Faz sentido, claro, todos nós somos pressionados diariamente por uma sociedade extremamente competitiva que raramente nos dá valor por aquilo que somos enquanto individuo mas quase sempre nos dá valor por aquilo que somos num referencial social em que nos podemos comparar a outros.
Isso obviamente empurra cada vez mais jovens para jogos como WoW ou CS (nada contra, bons jogos no seu género, keep it up guys! Shoot those n00bs and Slice those toons) em que a nossa auto-estima é mais recompensada quando superamos as capacidades do outro tipo, do que propriamente quando nos divertimos – “hey mas eu divirto-me quando mato outro gajo!”, you say?
Ok tudo bem, ninguém está a dizer que não é divertido, só estou a tentar dizer aquilo que penso que cada vez mais torna isso divertido.
Portanto os jogos single-player começaram a ser um risco, têm sucesso mas são mais complicados de publicitar ou de vender quando não são grandes títulos como Oblivion ou GTA. O pessoal compra, mas farta-se depressa e começa a olhar para outras coisas na montra.
Bom mas não é disso que fala este texto, falarei disso noutra noite ( de preferência tão bonita como a d’hoje) .
Este texto fala de jogos que apelam à imaginação, como o fazem e porque é que essa é para mim a mais valiosa das features.
Agora alguns exemplos de jogos que apelam à dita faculdade que Einstein ousou qualificar como mais importante que a inteligência.
Do mais subtil ao mais óbvio:
- Jagged Alliance – somos convidados a imaginar-nos realmente num mundo de mercenários onde temos que combater pelo bem daquele povo;
- Smackdown VS Raw – duvidoso? depois explico;
- Sid Meier’s Pirates(como grande parte dos outros títulos do grande Sid Meier), toda a gente já imaginou como era navegar numa daquelas barcaças;
- Ultima Online – a boa construção do mundo e a multiplicidade de personagens cativa o imaginário de qualquer um que não se importe de ser levado;
- The Sims(ou praticamente qualquer título do Will Wright[vénia]) – acho que é lógico porque apela à imaginação…
- Dundgeons & Dragons – se tiver que explicar… entro em estado depressivo.
Estes são alguns exemplos.. sinceramente não são os melhores e infelizmente são os únicos que me lembro agora, talvez um dia, quem sabe, possa vir a alterar isto… ou mais interessante ainda, vocês podem comentar com outros jogos que cativem a imaginação! Agradecia imenso…
Isto é complicado porque qualquer jogo pode cativar a imaginação, até um jogo de damas pode ser visto como uma batalha de cavaleiros por aqueles que como eu nunca vêem simplesmente peças brancas e pretas a saltar de casa em casa. Mas os jogos de que falo são aqueles que sem se aperceberem, tornam o acto de imaginar quase obrigatório para desfrutar totalmente deles.
Jagged Alliance
Por esta altura devo parecer um fã do jogo, mas devo dizer que nem por isso, é mesmo só porque foi o primeiro que me lembrei. Está aqui porque o jogo consegue criar muito bem todo o ambiente necessário a que nos deixemos levar pela acção. Isto pode ser considerado simples imersão, mas vai muito além disso, somos realmente convidados a imaginar uma biografia para os nossos companheiros, e sobretudo maneiras formidáveis de conseguir encurralar os nossos inimigos.
Smackdown VS Raw
Bom eu tenho que admitir que comprei um dos jogos porque realmente gostava do ambiente do wrestling, exactamente porque me permitia usar a imaginação, e para meu espanto o jogo trás uma feature formidável que nos obriga mesmo a usa-la se queremos aproveitar os €s que acabámos de gastar. Um modo no jogo chamado de General Manager Mode permite-nos criar rivalidades e colocar personagens nessas rivalidades. Ora a mente mais desocupada (eu) permite-se imaginar como é que essa rivalidade decorre , quais são os contextos e pretextos e qual é a reacção do público e das audiências a isso. O jogo, felizmente, por incapacidade técnica e criativa da Yokus, não é assim tão responsivo quanto isso às opções feitas pelo jogador, dando assim espaço ao mesmo para imaginar as respostas do público. Mal eles sabem que aquilo que muitos consideram parca qualidade, outras consideram possibilidade.
Pirates
Ora bem, aqui a culpa é do som, dos gráficos e da jogabilidade. Vejamos, quando navegamos ouvimos os sons dos piratas dentro do navio, no entanto não os vemos, só podemos imaginar os homens a trabalhar e a alegria que sentem ao avistar novos navios e terras para pilhar. Os gráficos são cartoonish, e todo o gráfico cartoonish que não nos remeta imediatamente para uma falta e falhada representação do real (como qualquer jogo 3D “real” hoje em dia) deixa-nos espaço para imaginar, lança-nos para os nossos 6 anos enquanto víamos desenhos animados e a nossa imaginação voava anos luz à frente do desenho animado em si! A jogabilidade de tão simples que é, deixa-nos com espaço de manobra para imaginar o que quer que possa ter ocorrido entre cada uma das cenas principais. Chegamos a uma cidade, o que é q fizemos lá? Não vemos nada, não vemos os piratas a entrar no bar, só nos vemos a nós lá dentro, e cada uma das pessoas naquele bar são misteriosas, são realmente aquele tipo de pessoa que encontramos num bar para piratas onde cada um deles tem milhares de histórias para contar e passados obscuros e atribulados. É fácil dar uso à imaginação em Pirates.
Ultima Online
Muitos MMORPGS têm esta capacidade, escolhi o UO porque acho que é aquele que mais me cativa a imaginar em vez de apenas andar até àquele monstro e mata-lo para subir de nível. O UO nos seus later stages dá ao jogador a possibilidade de usar as tão controversas Trading Skills a níveis de pormenor espectaculares. Quando dão ao jogador essa possibilidade, os dito jogador se quiser, pode passar uma vida de pescador, em que não se pode aventurar muito longe da aldeia porque senão pode encontrar um bicho mau. Ora se isto não é cativar a imaginação, não sei o que é. Imaginamos realmente que somos aquele pescador, que temos um objectivo, que temos uma história e que aquelas aldeias são a nossa terra, para viajar entre elas precisamos de guardas, de rangers que nos acompanhem. Este é o expoente máximo da imaginação dentro de um MMORPG, quando um jogador se sente motivado a fazer o RP. Quando conseguimos imaginar que aquilo são realmente pessoas num mundo fantástico de Ultima, que têm os seus trabalhos e as suas formas de subsistência, mesmo que no fundo todos eles sejam apenas Warriores que só querem matar bichos para ter gold para comprar uma espada melhor, só o facto de eu me sentir motivado a imaginar que não é bem assim, já é uma vitória muito importante. Mais uma vez, os gráficos e o som ajudam a isso, os gráficos 2D isométricos dão o afastamento necessário para ver aquilo como fantasia, o som preenche os gaps que a limitada visibilidade deixa, e toda a gente sabe que com o som e pouca informação visual, é só deixar de emborcar doses abusadas de Prozac e o cérebro começa a preencher os espaços vazios com aquilo de mais apelativo que nos lembrar-mos.
The Sims
É óbvio, para nos divertirmos, temos que imaginar a vida daquelas pessoas. Se simplesmente nos concentrarmos nas stats, nos objectivos de carreira e no sucesso nas relações, o jogo torna-se muito chato passado 3 ou 4 horas. Se nos deixarmos imaginar o que se está a passar, aquilo que eles estão a sentir e que eles fazem no trabalho e as motivações que os levam a querer comprar isto ou aquilo, ou a subir na carreira, o jogo só se torna chato passadas 2 ou 3 semanas.
Dungeons & Dragons
Fã?
Sim.
Mas há outros PnP RPG’s mais giros e actuais?
Tudo bem, mas eu gosto deste.
Mas os outros têm coisas armas com que explodes com os mauzões por todos os lados!
Eu gosto de espadas…
Bah! Isso é fundamentalismo…
HEY! HEY! HEY!…. Se há pessoas que fecundam sem preservativo porque um senhor de branco disse que é má onda e o big G não curte… eu posso muito bem rolar os meus dados para o que bem me apetecer, ok!?… humpf…
(já agora, algum grupo da zona de Lisboa que precise de um jogador… please contact me.. i need a party!)
Acho que não vale a pena explicar muito mais sobre PnPs e Imaginação.. se não sabem.. juntem outros 2 amigos, comprem (ou saquem da net, aqueles little bastards são carotes e para quem quer só experimentar é quase proibitivo) um livrito de regras de um Pen and Paper que vos parece girito e toca a jogar… se não se divertirem, a culpa é dele [aponta para um ponto indeterminado no horizonte longínquo]…
Ora bem porque é que dar espaço à imaginação é importante então?
Porque é uma faculdade que nos permite, sejam quais forem as condições, jogar o nosso jogo, de acordo com as nossas regras e ideias. Isso parecendo que não é dar ao nosso jogo o quíntuplo do valor e da longevidade. Sempre que nós, Gamers, somos convidados a escrever um conto ou fazer um desenho, brilhozinho no canto dos nossos olhos. Muitos de nós transpiramos imaginação e aquilo que normalmente nos atrai nos jogos é uma oportunidade de podermos interagir de alguma forma com gotas daquilo que imaginamos. Esse é o verdadeiro poder que sentimos sobre o jogo. Não é sequer comparável àquele que sentimos quando subjugamos o nosso adversário… Sentimo-nos completos quando o subjugámos e imaginámos a sua história e toda a batalha na nossa cabeça, apenas um pouco diferente daquilo que se viu no ecrã.
Peço desculpa àqueles que tiveram pachorra para ler o artigo todo pela sua enormidade. Ainda sou MUITO novo nisto dos blogs e ainda não me habituei a ser curto e grosso. Agradeço-vos imenso o tempo dispensado e espero não vos ter enervado ou irritado com nenhum dos comentários ou ideias.. mas se o fiz, na secção “All your base…” têm duas soluções para isso.
Muito Obrigado
P.S.: Àqueles de vós que não têm imaginação, é mais comum do que pensam e não é vergonha nenhuma, mas este artigo não era para vocês. Um grande erro só vos avisar no fim, devia calcular que vocês não iam imaginar uma coisa dessas. ah-AH! :P
Para criar um RSS deste Blogue clique por aqui algures
como professora que sou interessa-me a vertente didáctica que estes jogos eventualmente possam ter… Estive num congresso onde foi defendido que é possível jogar e aprender. Concorda? Estou pedindo sua opinião porque sou uma leiga no que toca a jogos de estratégia (ok é verdade, sou leiga em TODOS os jogos de cumputador) mas se isso ajudar meus alunos a motivarem-se para aprender História…
No referido congresso falaram do livro de stevenberlingjohnson.com “Everything bad is good for you” e de marcprensky.com “Don’t bother me I’m learning”. Ambos sobre o uso de jogos no ensino. Conhece?
Gostaria de conhecer a sua opinião :)
Não me posso considerar uma autoridade no assunto, e o meu conhecimento quanto a educação é igual à do próximo, mas com certeza que julgo que jogos são uma óptima forma de passar conteúdos.
Depende claro da idade dos alunos em causa e vi no seu blog que os alunos em causa serão jovens adultos, nesse caso é muito mais difícil passar a mensagem com jogos mas de qualquer forma aqui vão alguns títulos que pode recomendar aos seus alunos se realmente quiser:
Medieval Total War e Rome Total War são bastante decentes a representar a época medieval e clássica a nível mundial.
Outro jogo bastante bom mas menos fidedigno é a saga Civilization.
Aqueles que acho que são talvez os melhores títulos neste sentido são Iron Hearts II, que faz uma representação meticulosa da Europa da segunda guerra mundial, ou Europa Universalis III que recria bastante bem o mundo durante o capítulo dos descobrimentos.
Estes são os que me lembro de momento mais gerais, se precisar de algum capitulo da história mais preciso faça favor de dizer.
Quanto à minha opinião em relação à capacidade de jogos poderem ser uma ferramenta de ensino. Sou suspeito visto ser um aficionado pelo método, mas estudos indicam que qualquer pessoa apreende muito mais depressa quando é convidada a interagir com a realidade que deve apreender. Como os video-jogos são sistemas extremamente interactivos, então se um aluno tiver contacto com um jogo de dimensão histórica, é-lhe muito mais fácil compreender o contexto e a dimensão dos conteúdos que lhe são transmitidos nas aulas. Não consigo ir tão longe como dizer que os jogos podem servir como uma forma de passagem de conteúdos per se, mas é sem dúvida um óptimo auxiliar.
Espero ter respondido à sua pergunta.
Respondeu sim e deu pistas, o que é óptimo. Eu gosto sempre de ter a opinião de pessoas não professores porque… acabamos por pensar todos da mesma maneira. Acho que se deve passar o mesmo com as outras profissões.
Muito obrigada :)
[...] isso achei delicioso encontrar o post de uma pessoa com uma atitude interessante face aos jogos, o All your base (não há problema, apesar do título é um blog [...]
Os jogos sugeridos são de facto muito bons. Os vários títulos Total War, embora não tenham uma preocupação com o rigor histórico, no que aos nomes diz respeito, são óptimas recreações do espaço e do equipamento da época.
A Paradox por sua vez, com os Europa Universalis II e III, promovem o rigor, que vai ao pormenor de datas. Assim se estiveram a jogar o II em 1703 Portugal é confrontado com o Tratado de Methuen e em 1580 com a União Ibérica.
Já o Civilization, título consagrado de Sid Meyer, é uma boa ferramenta para dar uma ideia da evolução histórica no tempo longo, mas peca pela falta de rigor cronológico, já para não falar na imortalidade dos líderes de cada uma das civilizações.
A nova pedagogia das competências, sublinha a importância do saber em acção e como já foi defendido a jogar, ou seja em cenários de interacção permanente, é fácil passar conteúdos.
Parabens pelo debate que se gerou, vale a pena ler o que se pensa acerca do assunto.
Tal como o Luís Reis tiro o curso de História na FLUP (só que não pela via ensino) e acho que os jogos de computador podem ser uma ferramenta muito útil para o ensino da História. Quanto aos da Paradox (de que pessoalmente sou fã) acho interessante eles cobrirem várias épocas. O Europa Universalis cobre a época moderna, o Victoria: An Empire Under The Sun cobre o século XIX até à I Guerra (podendo com o patch Revolutions ser expandido até aos anos 1930) e o Hearts of Iron cobre a II Guerra (se for usado o patch Revolutions pode-se até continuar o jogo anterior). Neste caso, o que mais me agrada é a ideia de continuidade que poderá dar aos alunos (apesar de não ser via ensino dou explicações e já mandei miúdos jogar jogos nos tempos livres) uma ideia mais ampla e articulada dos acontecimentos. Não é uma forma única de ensinar História mas abre novas perspectivas, permite criar interesse nos alunos (já tive explicandos que me vieram perguntar porque é que o Tratado de Methuen era suficientemente importante para aparecer no jogo quando antes não tinha passado de uma data a decorar). Creio que alguns jogos, sobretudo com rigor histórico, permitem aos alunos uma ideia mais clara das interacções entre acontecimentos.
E, além do potencial pedagógico, eu também gosto de uma boa jogatana.
Inês Machado Pereira
vai toma no cú seu puto
мне кажется: мне понравилось…